20090427

...








é o mundo que está a arder? é a minha alma que está a arder?

ou é a combustão da minha alma apenas o reflexo da combustão do mundo?

é o mundo que se está a afundar no cosmos? é a minha alma que se está a diluir no cosmos?
ou é a diluição da minha alma apenas o reflexo da submersão do mundo no nada sem nome?

Cada dia promete o esquecimento do dia anterior,
mas ao mesmo tempo aviva a sua memória feroz.

É o demónio que me caça por exaustão, ou apenas a memória demasiado carregada de futuro que pesa cada passo da fuga?




























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fotos: 25 Abril 1974, e 1 de Maio de 1975. Autores desconhecidos

20090417

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Tinha sepultado o filho colocando-lhe uma coroa de flores brancas na cabeça pois ele nunca na vida chegaria a noivo.
- O teu filho atravessou o rio em direcção a um lugar esplêndido e belo - disse Polyxeni.
- Ele desposou a terra negra - soluçou a mulher.
- Traz-lhe, todos os dias, água para beber - aconselhou Polyxeni

[...]

- Oh, Polyxeni, o que hei-de fazer? - exclamou a mulher. O que hei-de fazer para me libertar desta saudade? A minha garganta arde com ela. O que hei-de fazer?
- Vem aqui todos os dias - repetiu Polyxeni. - Vem cá todos os dias, e canta, fala com ele, e presta atenção ao que ele te diz quando sonhas com ele e, um dia, sentirás os teus dedos a estenderem-se e ele levará para longe toda a tua dor e saudade, e estas serão tecidas em fio, e farão roupas alegres que ele vestirá no jardim para lá do rio.






















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Texto: in "Pássaros sem asas" por Louis de Bernieres, capitulo 12.
Imagens: "Burning World" por The Swans; Capa da Weekend Review

20090414

"The god of the Great Deep or Abyss"



I stood upon the balcony with my brand new bride, the clink of bells came drifting down the mountainside. When in our sight something moved - lightning eyed and cloven hooved - The great god Pan is alive! He moves amid the modern world in disguise, it's possible to look into his immortal eyes. He's like a man you'd meet anyplace Until you recognise that ancient face
The great god Pan is alive! At sea on a ship in a thunder storm on the very night that Christ was born, A sailor heard from overhead a mighty voice cry Pan is dead! So follow Christ as best you can
Pan is dead! Long Live Pan! From the olden days and up through all the years, from Arcadia to the stone fields of Inisheer, Some say the Gods are just a myth but guess who I've been dancing with.
The great god Pan is alive! *









"Though horror and revolting nausea rose up within me, and an odour of corruption choked my breath, I remained firm. I was then privileged or accursed, I dare not say which, to see that which was on the bed, lying there black like ink, transformed before my eyes. The skin, and the flesh, and the muscles, and the bones, and the firm structure of the human body that I had thought to be unchangeable, and permanent as adamant, began to melt and dissolve.

"I know that the body may be separated into its elements by external agencies, but I should have refused to believe what I saw. For here there was some internal force, of which I knew nothing, that caused dissolution and change.

"Here too was all the work by which man had been made repeated before my eyes. I saw the form waver from sex to sex, dividing itself from itself, and then again reunited. Then I saw the body descend to the beasts whence it ascended, and that which was on the heights go down to the depths, even to the abyss of all being. The principle of life, which makes organism, always remained, while the outward form changed.

"The light within the room had turned to blackness, not the darkness of night, in which objects are seen dimly, for I could see clearly and without difficulty. But it was the negation of light; objects were presented to my eyes, if I may say so, without any medium, in such a manner that if there had been a prism in the room I should have seen no colours represented in it.**




http://emotional-literacy-education.com/classic-books-online-b/ggpan10.htm


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* Waterboys "The return of Pan"
** Arthur Machen "The great god Pan"

20090411

Happy Ishtar




These many professing Christians suppose they are gathering together on Easter to commemorate the anniversary of the precise moment Jesus Christ rose from the dead!

They believe they are celebrating the resurrection.

Easter: The English term, according to the Van. Bede, relates to Eostre, a Teutonic goddess of the rising light of day and spring, which deity, however, is otherwise unknown.... "That the apostolic fathers do not mention it and that we first hear of it principally through the controversy of the Quartodecimans are purely accidental" (The Catholic Encyclopedia, article "Easter," emphasis added).



"Easter: The annual festival observed throughout Christendom in commemoration of the resurrection of Jesus Christ. The name Easter (Ger. Ostern), like the names of the days of the week, is a survival from the old Teutonic mythology[and] is derived from Eostre, or Ostara, the Anglo Saxon goddess of spring, to whom the month answering to our April, and called the 'Eostur-monath,' was dedicated. This month, Bede says, was the same as the Mensis Paschalis [which meant "Passover" month], 'when the old festival was observed with the gladness of a new solemnity.'

"There is no indication of the observance of the Easter festival in the New Testament, or in the writings of the apostolic fathers.

"The first Christians continued to observe the Jewish festivals, though in a new spirit, as commemorations of events which those festivals had foreshadowed. Thus the Passover, with a new conception added to it of Christ as the true paschal lamb and the firstfruits from the dead, continued to be observed, and became the 'Christian Easter'" (The Encyclopedia Britannica, eleventh edition, emphasis added).

http://godkind.org/easter.html



20090315

p0rt0






















[...] Esta cidade não é uma cida-
de é um vício





































































































































Um anjo papudo olha-me
lá do alto e eu estendo

as mãos não vá ele es-
tatelar-se no asfalto.

Um anjo papudo pintado
de azul-cobalto.


























Quando vens de sul ao chegar
à ponte desaceleras um pouco

para poderes olhar a escarpa
e o rio... Nenhuma outra cidade

se oferece assim a quem chega
como uma cadela permanen-

temente com o cio.












O que esperas sentado à
mesa do café olhando

a chávena bazia? que
o lastro do quotidiano se

despegue da tua alma
e da tua pele e que a

beleza como um oceano
inunde a folha de papel



















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Textos: 1) Porto de abrigo 2) Igreja de Santa Catarina, 3) Ponte da Arrábida, 4) Pólo Norte. In "Porto de Abrigo" por Jorge Sousa Braga

20090310

Bergson e Perez








The metaphysicians have dug a deep tunnel beneath reality, the scientists have thrown an elegant bridge over it, but the moving stream of things passes between these two artificial constructions without touching them













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Texto: Henry Bergson "An Introduction to Metaphysics"
Desenhos: Raul Perez
(Cerca de 90 desenhos e pinturas criadas entre 1960 e 2008 por Raúl Perez estão patentes no Museu Colecção Berardo, naquela que é a maior exposição de sempre dedicada ao universo plástico deste artista português)

20090226

o barbeiro e a psicanalista


semanas e semanas a fio, sem um dia de descanso. as tarefas perfilam-se, acumulam-se e agigantam-se num carrocel em espiral.
as palavras de dentro esperam em vão. o coração afoga-se em inquietações sem nome, e em vão tenta protestar.
















enquanto políticos, automobilistas, amigos, e família se entrelaçam num bolo indigesto e sereno de desorientação social e emocional, enquanto todos parecemos empurrar uma sociedade inteira para as inumeras e vorazes bocas invisíveis, enquanto cidades inteiras e aldeias globais esperneiam eficazmente dentro de uma montanhosa sepultura de açucar derretido,
o barbeiro e a psicanalista fazem o seu trabalho pausadamente.

impedem-me por mais umas semanas de me tornar um bicho surdo-mudo cabeludo com os olhos vivos nos farrapos de floresta que ainda resta.


20090220

The Masquerade



Vamos celebrar A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja De assassinos Cobardes, estupradores e ladrões...

Vamos celebrar A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...

Nosso castelo De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afectação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente Que trabalhou honestamente A vida inteira
E agora não tem mais Direito a nada...

Vamos celebrar a aberração De toda a nossa falta De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror De tudo isto Com festa, velório e caixão
está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar A estupidez de quem cantou Esta canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!...



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texto: "Perfeição", Legião Urbana
imagens: Jason Stillman "The Masquerade"

20090216

A proposito de Rio J (II)

Quando ela me convidou para passar o ano na casa de Ipanema, o meu sentimento foi um misto de excitação, medo, esperança e cansaço. Tenho medo do Rio, uma vez quase fui morto com uma garrafa partida, roubado e tive de encomendar a alma ao céu. Excitação pela selva e a urbe e a euforia. O Rio é uma selva urbana, e uma selva selvagem. A Mata atlântica envolve ainda as enormes pedras onde o exercito está à mercê dos mesmos perigos que os primeiros europeus, e a nata da civilização acomoda-se até onde pode nas reentrâncias do primitivo e selvagem. A desigualdade social é vertiginosa, e a sociedade está em ebulição. Nunca o casamento do paraíso e do inferno foi uma parábola tão bem utilizada para vestir uma cidade. O casamento disfuncional, acrescente-se...



Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual - há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É a visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo - como a morte parece dizer sobre a vida - porque preciso de registar os factos antecedentes.
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geleia trémula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela, e é claro que a história é verdadeira embora inventada - que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um
e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa do que o ouro - existe a quem falte o delicado essencial.
Como é que eu sei tudo o que se vai seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça [...] ***







































































[...] Talvez que a enorme Coisa sofra na intimidade das suas fibras, mas não se compadece nem de si nem daqueles que reduz à congelada expectação [...]
Mas a Coisa interceptante não se resolve. Barra o caminho e medita, obscura *


































É sempre no passado aquele orgasmo, é sempre no presente aquele duplo, é sempre no futuro aquele pânico. É sempre no meu peito aquela garra. É sempre no meu tédio aquele aceno. É sempre no meu sono aquela guerra. É sempre no meu trato o amplo distrato. Sempre na minha firma a antiga fúria. Sempre no mesmo engano outro retrato. É sempre nos meus pulos o limite. É sempre nos meus lábios a estampilha. É sempre no meu não aquele trauma. Sempre no meu amor a noite rompe. Sempre dentro de mim meu inimigo. E sempre no meu sempre a mesma ausência. **






















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Fotos:
0.0 e Nana
Textos:
Carlos Drummond de Andrade * O Enigma; ** O Enterrado Vivo
Clarice Lispector *** A Hora da Estrela